Tempo de pastorear, tempo de tosquiar

Quando me propus a fazer uma peça de teatro a partir de “O guardador de rebanhos”, eu agia como se age em direção a um sonho novo: com a abstração máxima da vontade e com o bem querer supremo do coração. Mas, intelectualmente, eu não tinha consciência do tamanho do rebanho que seria necessário tosquiar, se eu quisesse cumprir o objetivo com certa responsabilidade e excelência artística. É que, da obra de Fernando Pessoa, eu conhecia com alguma propriedade apenas os poemas de Alberto Caeiro; e eles me inspiravam (e ainda inspiram) de uma maneira intrigante.

Fácil seria, portanto, se eu tivesse ido para a sala de ensaio com as manhas de sempre, com os 49 poemas em mãos e, motivado pela beleza daquele universo poético, realizasse alguns laboratórios de declamação de versos livres para a recriação cênica daqueles temas pastoris e daquelas imagens bucólicas tão pacificadoras. Confesso que foi por aí que comecei a imaginar o trabalho, em meados de 2015.

Porém, se intelectualmente o desafio ainda não havia se anunciado, materialmente ele estava plenamente à vista: eu não dispunha de nenhum recurso para trabalhar e estava decidido a não mais trabalhar sem os meios adequados. Assim, sem meios, estou até hoje – e já é junho de 2018 – embora o projeto esteja aprovado no prêmio municipal de cultura que, em breve, será pago. Portanto, entre a fagulha inicial da ideia e o começo de sua materialização já se passam três anos.

Não foram três anos perdidos, como parte de mim as vezes crê, revoltada com a ordem de prioridades do mundo. Na verdade, parece-me que nas situações onde a ação é difícil, a contemplação se torna imperiosa (E quem dirá que este não é um tema central na Arte? Também o é em “O guardador de rebanhos”!). Foi neste período contemplativo, em que me cerquei de muitas questões, leituras, pesquisas, cursos, conversas, etc; que pude entender a seriedade do projeto ao qual eu me proponho.

Grande tem sido neste período o aprendizado com a Tânia Farias, mulher e artista que se tornou minha principal parceira não só neste projeto, como também na vida.  Apesar de que no quesito ‘Fernando Pessoa’ nós dois sejamos igualmente analfabetos em tratamento; quando o assunto é Teatro, ela é uma mestra! Acercado dela, eu pude perceber e apreender muito do fenômeno teatral, por seus ensinamentos diretos e também pela riqueza que colhi na fonte do seu “Ói nóis aqui traveiz”.

No início deste contato vital, muito me marcou re-conhecer e tomar consciência do conceito e da prática do Teatro de Pesquisa, em que o próprio ator assume a responsabilidade de trabalhar tanto em busca da sua expressão estética, quanto em prol de sua formação técnica e ética. Havia algum tempo que eu pendia a isso sem concatenar realmente essa forma de ser. Tomei pra mim. É uma decisão deveras emancipatória, considerando as poucas e pobres opções de desenvolvimento artístico disponíveis no interior do Paraná. É verdade que ninguém pode dar o que não tem, mas aquele que é fiel sobre o pouco, será posto sobre o muito!  – já ensinava outros pastores.

Muitos outros encontros vieram a reafirmar “O guardador de rebanhos” na minha vontade. Encontros na esfera do teatro, da poesia, do cinema, mas principalmente na esfera da espiritualidade e da religião. Experiências que pretendo relatar nos próximos textos.

Surge, então, a certeza de que não bastaria mesmo ir à sala de ensaio apenas com os 49 poemas em mãos (quando houvesse sala de ensaio). Passa ser necessário uma investigação minuciosa do projeto de Fernando Pessoa (ele que é talvez o maior poeta da língua portuguesa): conhecer sua obra – sondar sua influência, seu pensamento estético, suas questões centrais, seus estilos, sua cosmovisão… – É necessário identificar a posição relativa de Alberto Caeiro no escopo geral da obra e, nele, sacar as tensões, as referências, as arquiteturas, os símbolos, o mistério… É necessário aprender.

E é necessário descobrir a razão de ser daquele sonho novo. Afinal de contas, pra que fazer teatro a partir dessa obra? Aliás, pra quê fazer teatro? E se for fazer, fazer de que tipo? Como transpor? Com que intenção? Com que qualidade? De que maneira? Com que técnica, com que estilo?  Como adquiri-los? Baseado em que ideais? A partir de que meios?

 Seguimos, pois, tosquiando…

Lucas Fiorindo

 

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